SERRA NEGRA: A CAIXA D'ÁGUA DO MARANHÃO!

sexta-feira, 11 de maio de 2012

AS TRINCHEIRAS DA FAZENDA “CAROLINA DOS MOREIRAS”


AS TRINCHEIRAS DA “CAROLINA DOS MOREIRAS”

Nos últimos anos, ao retornar de São Luis-MA, capital do Estado, onde permaneci por 13 anos, vim fixar residência em Grajaú, porém sem imaginar que aqui no sertão maranhense fosse impressionar-me com a imensa beleza e profusão da paisagem rural e campesina.
Como se não bastasse, em 29 de março do corrente ano completaram-se 200 anos de fundação da povoação do Porto da Chapada, levada a cabo pelo bandeirante e alferes Antonio Francisco dos Reis, no local onde antes existira uma fazenda de Manoel Valentin Fernandes.
Assim, imbuído do ideal de resgate histórico da memória da antiga Grajahú ousamos discorrer algumas letras por acidentes geográficos e acontecimentos históricos importantes da vetusta Chapada e da região onde nascem os rios Mearim e Grajaú – a Pré-histórica Serra Negra. onde nascem os rios Mearim e Grajaa  acidentes geograficos  dos Reis, no local onde antes existira uma fazenda de Antonio Valen    
Do Grajaú rumando em direção à Serra Negra, abunda um paraíso repositório de cabeceiras de rios, riachos, córregos, brejos, serras, morros, espigões, campinas e matas, onde a natureza ainda murmura e recebe com galhardia o curioso viajante, bem como o homem nativo - o sertanejo hospitaleiro.
Na confluência dos municípios de Formosa da Serra Negra, Fortaleza dos Nogueiras e São Pedro dos Crentes, nascem os rios Mearim e Grajaú. Estes dois rios inscrevem-se definitivamente nos principais índices de hidrografia do sertão maranhense, ambos fazendo parte integrante da bacia hidrográfica do Parnaíba.
A Serra Negra é um majestoso acidente geográfico e dos mais enigmáticos dessa imensa região típica do bioma Cerrado.
Daquela serra jorram dezenas de riachos e igarapés, os quais afluem para os rios Mearim e Grajaú, a exemplo do Grajauzinho, tributário deste último, o qual nasce nas escarpas da Serra Negra, banhando a tradicional povoação da Varjota, um próspero povoado, já aspirante a Comuna.
Há quem denomine a Serra Negra de “Caixa D’água” do Maranhão, título atribuído à sua prodigiosa capacidade hídrica, uma vez que a mesma é uma espécie de enorme olho d’água que brota do seio da terra.
Na obra “Compêndio histórico-político dos princípios da lavoura do Maranhão”, de Raimundo José de Sousa Gaioso, escrita por volta do final do século XVIII, porém publicada apenas em 1818, aquele intelectual nos dá uma noção da enigmática Serra Negra: “Entre o Mearim e o rio Grajahú há huma serra tão es-calvada, e os mattos tão rasos, que parecem tostados. Encontrão-se na dita serra grandes penedos com suas grutas naturaes. Correndo do cume delle, há hum reácho do agoa estilica, ou adstringente, que desagôa para o Mearim e Grajahú, do qual ainda se ignora a sua extenção.”
Nas cercanias dessa famosa serra, pulsa a bela e florescente urbe de Formosa da Serra Negra, às margens da rodovia MA-006. Dessa cidade à serra glosada, dista pouco mais de uma légua e a apenas uns 3 km das corredeiras do altaneiro Mearim, rio este que nasce, ganha volume d’água e corre aproximadamente por uns 100 km sinuosamente nos domínios rurais do município de origem, a bela, rústica e aconchegante Formosa.
Falando em rio Mearim, veio-me a propósito a indelével lembrança das profícuas leituras que ora realizei nos últimos meses, entre as quais marcou-me um episódio lamentável inscrito na história sertaneja de nosso Estado, o dantes denominado pelos historiadores com o cognome “Sertão de Pastos Bons”, a exemplo de Francisco de Paula Ribeiro, famoso alferes português que trilhou por essas plagas do ocaso do século XVIII, à aurora do século XIX.
Uma coletânia de artigos de extraordinário valor desmistificatório, sobre a “A Questão do Grajaú” foi escrita de forma fracionada na imprensa maranhense do início do século XX, no diário “A Pacotilha”, matutino da capital, posteriormente adquirido pelo magnata Assis Chateubriand, o qual, décadas depois, viria a ser senador do Maranhão, em situação análoga à do cavalo do césar Calígula que fora “eleito” ao Senado romano.
Concomitantemente, os referidos artigos eram publicados no “Jornal do Brasil”, veículo da imprensa carioca pelo intelectual, professor, historiador, geógrafo, sertanista e advogado Parsondas de Carvalho.
O resgate daqueles belos artigos veio a lume no alvissareiro ensaio escrito pelo magnífico escritor grajauense Sálvio Dino no opúsculo “Parsondas de Carvalho, um Novo Olhar Sobre o Sertão”, editado pela Ética Editora, em 2006, editora sediada em Imperatriz do Maranhão - a famosa metrópole Portal da Amazônia.  
Sálvio Dino vem a ser, por sinal, Presidente da Academia Grajauense de Letras, confraria fundada em 27 de janeiro de 2006.
Naquela obra, esse aludido escriba batiza sob o epíteto de “Guerra do Leda” os conflitos referentes à célebre “Questão do Grajaú”.
Ali, é de causar espanto a tamanha sanha assassina com que os partidários do Senador Benedito Leite, no Grajaú, praticaram contra os partidários leais ao liberal Leão Rodrigues de Miranda Leda, homem de incontestável liderança em todo o sertão de Pastos Bons.
Salta aos olhos os requintes de crueldade perpetrados pela Polícia oficial naqueles sangrentos anos de 1899, nas paragens do Grajaú, Vila do Riachão, Serra Negra, Serra da Cinta e outras localidades sertanejas naquele momento histórico da chamada República Velha no Maranhão.
O estopim da crise, segundo Parsondas de Carvalho, fora a morte do promotor de Grajaú, Estolano Polary. Eis o mote para a inexorável eliminação do líder oposicionista Leão Leda.
O Grajaú, a Cinta e a Serra Negra viraram carnificina, coisa dos tempos coloniais, pois só nas mais sangrentas rebeliões do Período Colonial Brasileiro, bem como nas revoltas da década sob as Regências de 1831 a 1840, houveram tamanhas atrocidades, a exemplo da Balaiada, rebelião que teve como palco a região das Aldeias Altas na outrora província do Maranhão.
A diferença entre aquelas revoltas do passado mais remoto e esta ocorrida em Grajaú foi o fato de que nesta última já estávamos sob o bastião da República, onde o respeito às leis é mais imperativo, até pelos próprios princípios que embasam o ideário republicano, desde a Ágora ateniense.
Um personagem bastante controvertido nesse episódio, sob o ponto de vista parsondiano é o próprio modus operandis pelo qual o senador da então Benedito Leite e Jefferson Nunes, político grajauense encarnam e dão ordens diretas aos chefes da força pública grajauense, a exemplo dos capitães Bibiano e Nicolau para que ambos caçassem Leão Leda, o líder do Sertão, “como se caça cutia”.
Após essa digressão sobre a memória do malfadado senador, resta estreme de dúvidas que a partir da divulgação maciça da “Guerra do Leda”, tenha-se a exata noção das atitudes políticas de Benedito Leite para com seus adversários, tomando-os como seus algozes e perseguindo-os diuturnamente, no afã de servir aos seus caprichos de vingança, caturrice e carrancismo.
A máscara há de cair no que diz respeito à biografia ora lustrosa do senador Benedito Leite, pois a História, como ramo do conhecimento humano tem compromisso com a verdade, isto é, com a fidelidade da versão dada aos fatos efetivamente ocorridos.
Nesse sentido, causa perplexidade uma passagem de Artur Colares Moreira, na obra “Gomes de Castro, Benedito Leite e Urbano Santos”, escrita em 1939, na qual afirma o autor a respeito do senador Benedito Leite: “Embora sob influência de temperamentos diferentes, nos traços característicos de suas individualidades, Benedito Leite e Urbano Santos se irmanavam na benignidade, incapaz, qualquer deles, de ferir ou de prejudicar ao adversário, por este ou aquele motivo injustificado e muito menos por partidarismo.” pág. 237.
Após uma afirmação destas, Parsondas deve estar se remexendo no túmulo. É como se diz alhures: “uma coisa é o fato em si, outra bem diferente é a versão dada a este”.
De minha parte, comungo com o estranho espanto sentido pelo preclaro magistrado e historiador Milson Coutinho, no prefácio da citada obra de Sálvio Dino, ora em glosa, toda vez que passa defronte à estátua de Benedito Leite em frente ao antigo Palácio do Comércio, em São Luis, no centro histórico da cidade Patrimônio Cultural da Humanidade, onde lamenta: “Já não sei se posso passar nas imediações da antiga Praça da Assembleia, hoje Benedito Leite, com o mesmo respeito e aplauso que antes devotada à pomposa estátua desse político do passado, que agora me parece, por demais arrogante, e, afinal, assustadora”.
Na referidas matérias publicadas por Parsondas de Carvalho, no Maranhão e no Rio de Janeiro a partir do dia 20 de janeiro de 1902, após lê-los e perscrutá-los detidamente, confesso ter sentido praticamente a idêntica situação de Arquimedes ao descobrir na banheira de casa a resolução de uma intrigante equação matemática, ato contínuo tendo saído completamente nu, gritando esfuziantemente, em coro, a expressão: “Achei...!”.
É que na referida “Guerra do Leda” percebo que a antiga Fazenda Carolina existe ainda atualmente, ironicamente rústica, primitiva e impávida há mais de um século daquele sangrento episódio que veio a culminar com o deslocamento das forças do capitão Bibiano até àquele memorável rincão sertanejo, “distante há 15 léguas do Grajaú”, às margens plácidas do intrépido Rio Mearim, nos exatos moldes em que assentou o gênio de Parsondas através de sua pena doirada.
Este humilde escriba que vos fala por intermédio destas linhas esteve, in loco, na antiga e gloriosa Fazenda Carolina dos Moreiras, e qual a grata surpresa de, observando, perscrutando, olhando, enfim, analisando pormenorizadamente ter verificado e presenciado verdadeiras trincheiras de pedras, erguidas provavelmente em 1899, ainda praticamente intactas, apenas parcialmente cobertas por ralos arbustos, como mostrou-me o atual proprietário da antiga Carolina, o ilustre fazendeiro José Rodrigues, ancestral na linha colateral deste humilde escriba.
Pois, a propósito, José Rodrigues é filho de Emiliano Rodrigues de Araújo, tio de meu avô materno Alfredo Rodrigues de Araújo, ambos de saudosa memória.
A título de ilustração e prestando uma justa e honrosa homenagem, o Dr. Emiliano José Rodrigues, Juiz de Direito na outrora Nosso Senhor do Bonfim da Chapada, de 1871 a 1873, de tão rica memória, era tio avô de José Rodrigues, o atual proprietário da Fazenda Carolina, imortalizada por Parsondas de Carvalho, o filho da Vila do Riachão.
Retornamos, entrementes, às citadas “Trincheiras” da Carolina dos Moreiras, local onde resistiu bravamente Leão Leda ao ser acossado pelos sequazes do capitão Bibiano. Aquelas mesmas muralhas de pedras centenárias resistem à chuva e ao sol há mais de um século, motivo pelo qual ousamos afirmar que aquele pedaço do Sertão é, a rigor, um “museu” a céu aberto, pois nos combates insanos ali travados pela rendição e captura de Leão Leda, este não se entregou às forças da Polícia oficial, tendo a mesma retornado ao Grajaú decepcionada em seu afã de prender o líder do Grajaú que, após este episódio, empreendeu fuga para a Boa Vista, atual Tocantinópolis-TO, local em que viria a engalfinhar-se em outros longos combates políticos, desta vez tendo como rival o padre João, pároco daquela vila.    
Parsondas de Carvalho, como ele próprio afirma em suas crônicas insertas na “Guerra do Leda”, foi pessoalmente à Serra da Cinta, ao Riachão, ao Grajaú, porém não chegou a ir à Serra Negra testemunhar os vestígios da resistência do líder do Sertão, razão pela qual, quiçá, não haver em suas impressões sobre a guerra nenhuma menção às trincheiras comentadas acima.
Aquele é um local privilegiado. A Fazenda Carolina foi adquirida da outrora tradicional família Moreira - à qual pertencia a esposa de Leão Leda - em 1939, pela matriarca dona Juliana, mãe de Emiliano Rodrigues de Araújo, avó do octogenário José Rodrigues, que, como me confessou pessoalmente, aos 17 anos, em 1939, em companhia de sua avó Juliana e de seu pai Emiliano emigrou da Serra Branca, rincão próximo à Barra do Corda, na região da chamada “Travessia” – terra natal do saudoso juiz  Dr. Emiliano José Rodrigues – para a “Carolina dos Moreiras”, nas encostas da Serra Negra.
Este saudoso e doutor juiz nasceu naquelas plagas e, ao que se sabe, não deixou descendentes. Segundo declarações de parentes residentes em Grajaú, teria nascido prematuro aos 7 meses. Nunca contraíra núpcias e teria falecido, segundo José Rodrigues, aos 59 anos de idade, em decorrência de enfermidade não conhecida, tendo-se constatado, inclusive, que o mesmo era hipocondríaco.
Após estas tangentes divagações vimos informar da grata honra intelectual em podermos resgatar uma fonte física tão valiosa quanto o são as “Trincheiras da Carolina dos Moreiras”, testemunhas vivas dos sangrentos conflitos e matanças no Sertão grajauense, envolvendo ordens de altas autoridades regionais e locais naquele biênio histórico.
Ousamos afirmar que a questão do Grajaú, “data maxima venia”, é extremamente necessária para a compreensão das lutas travadas pelo domínio do poder político local e regional, no contexto dos primórdios da República no Maranhão e especialmente em Grajaú e em todo o Sertão de Pastos Bons, sob a hegemonia dos coronéis.
O episódio da Guerra do Leda é comparável em extensão e contexto ideológico à Balaiada, em se tratando das práticas de guerrilhas empregadas. Assim foram mortas famílias inteiras de sertanejos, simpatizantes e partidários dos liberais alheios, no mais das vezes, à conjuntura da política nacional, no âmago das fratricidas lutas protagonizadas pelos adeptos das correntes ideológicas de antanho, que ora gravitavam em torno da conquista e da manutenção do poder político.
Em arremate, urge envidarmos esforços no sentido do resgate e preservação de nossa memória histórica, haja vista que muitas relíquias do passado remoto foram destruídas ou deixadas ao esquecimento e alheias ao conhecimento público, em razão no mais das vezes à ausência de sensibilidade histórica, estética, cultural e antropológica da grande maioria de nossa sociedade, em decorrência lógica dos alarmantes índices educacionais do povo do Maranhão.

Raimundo da Silva Costa, professor com Licenciatura Plena em História pela Universidade Estadual do Maranhão – UEMA, advogado com Bacharelado em Direito pela Universidade Federal do Maranhão – UFMA e cursando Pós-Graduação em Direito Processual Civil, pelo Grupo Educacional UNINTER, no Pólo de Grajaú/MA.

Um comentário:

  1. Shalom! Parabéns...Nobre Professor Raimundo da Silva Costa, e receba minhas sinceras congratulações e sons de aplausos por este belo, instigante e memorável Artigo: 'AS TRINCHEIRAS DA “CAROLINA DOS MOREIRAS”', confesso que mergulhei profundamente na fonte e pude vislumbrar, com olhos atentos e saiba que, a minha imaginação esteve a mil por 'hora', tentando, assimilar e acompanhar, a tantas descrições sobre: A beleza dos lugares, do relevo, sua hidrografia, sua história, seus costumes e a gênese de uma grande e espetacular História... Detalhes que, para muitos passariam despercebidos, ao relatar a saga do: "liberal Leão Rodrigues de Miranda Leda, homem de incontestável liderança em todo o sertão de Pastos Bons". Uma grande epopeia, a história de um gigante da sua época, homem de brio e de caráter firme e de honradez forte no seu tempo e forjado na tempera do aço disposto a enfrentar e levar às últimas consequências da legião do então, Senador da República, ora citado no seu artigo. Nobre Professor Raimundo da Silva Costa.
    Gosto de História e da interação com o seu povo na sua própria escala do tempo, tento absorver as dificuldades e os desafios dos que nos antecederam e que abriram as primeiras picadas, as trilhas bem como as origens das Primeiras Povoações no nosso Sertão Maranhense, às margens dos Rios: Mearim, perto das cabeceiras do Grajaú, do Corda, do Enjeitado, do Flores, do Itapecuru e do Alpercatas... São estas Pegadas da História, relatos como estes inseridos no seu artigo que aos poucos nos faz compreendermos um pouco mais a nossa própria História e a nossa Gente.
    Um abraço fraterno,
    Creomildo Cavalhedo Leite-Filosofia-UFT-Palmas-TO.
    E-mail: creomildo04@yahoo.com.br

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